Por que “deixei” de ser feminista

“Deixei” entre aspas porque nunca o fui.


Falar sobre o feminismo é complicado, há muita informação difamatória por aí sobre o movimento, há backlash — que nada mais é que uma segunda teoria contra a primeira, mais popular e esteticamente atraente. Essa teoria leva a alcunha de feminismo, mas nunca ajudou nem melhorou os direitos e conquistas das mulheres.

Antes de desligar-me do adjetivo “feminista”, flertava com o feminismo radical — o que chamam de verdadeiro feminismo, o feminismo único, pois foi a partir dele que surgiram teorias acerca de toda a exploração das mulheres, e o surgimento dela; caracterizada como segunda onda. Sempre achei o feminismo radical esclarecedor e producente para as mulheres, pois vai à raiz da opressão e estuda os mecanismos de manutenção do poder, status quo e como lutar contra eles. No entanto, o feminismo radical tem seus defeitos. Ele foi concebido numa época onde  o conceito trans não era popular, nem um ativismo. Ele nasceu quando travestir era uma ferramenta de apagar gays e lésbicas, pois a noção universal de sexualidade era — e ainda é — da heterossexualidade. Portanto, um homem que utiliza de roupas e acessórios anteriormente denominados como “femininos”, possui aceitação parcial da sociedade para relacionar-se com homens (e isso acontece até hoje em alguns países onde a homossexualidade é criminalizada). O transativismo atrapalha nossa ascensão de direitos da mulher no mundo, por reforçar estereótipos que arduamente tentamos eliminar. Porém, o transativismo de 2015 é diferente daquele usado como pena nos anos 60 — era isso ou castração química. O que o radical não conseguiu aduzir, por ora, é que bater o pé não resolve. Eu sei que cérebro feminino não existe, e nem roupas femininas, existem papéis sociais a serem cumpridos desde o nascimento. E o radical não deu conta de explicar a explosão de trans atualmente. A homossexualidade ainda é repugnada, o travestismo idem. E sabendo que todos os movimentos sociais estão dominados por homens — o LGBT, o backlash, o feminismo liberal, os movimentos estudantis — eu me afastei. Larguei o colete. Não estamos seguras nos nossos espaços, nunca estivemos nas ruas, e muito menos na universidade.

Mas a intenção nunca foi focar no transativismo. Não me interessa o que eles fazem, desde que não machuque uma mulher ou ofusque suas exigências.

Acontece que, o feminismo é uma teoria linda, elucida nossas percepções, nos faz questionar por que agimos de tal forma, por que gostamos de tal coisa. Todavia, na prática ele é doloroso. E há quem diga que “se não machucar não é feminismo”. Então criamos uma teoria para continuar nos machucando como o patriarcado? Contextualizando, o feminismo liberal prevê que o seu bem-estar seja prioridade, então você é atriz pornô se isso te faz bem, você usa maquiagem se te faz sentir bem, mas ele não questiona por que nos sentimos bem e o quanto esse “bem” é subjetivo. O radical faz isso. O liberal tem esse nome porque é capitalista. Não existe libertação da mulher no capitalismo e menos ainda individualmente. Isso não afeta o sistema. É como não trabalhar para não gerar lucro a um burguês; o sistema permanece e você continua sem dinheiro. Aí, surgem mulheres que, não intencionalmente, levam a teoria tão seriamente que passam por cima da vivência e sentimentos de outras mulheres. E, enfim, cheguei ao ponto.

Eu me tornei essa mulher. Não sou paciente, muito do feminismo me ensinou a respeitar outra mulher, e de fato, isso acontece. Até certo ponto. Percebi, após várias autocríticas, que eu não suportava o feminismo liberal e culpava mulheres por isso. As mulheres que aceitavam homens nos espaços, as mulheres que permitiam que as pessoas trans tomassem conta do feminismo e do movimento LGBT em prol de uma coisa tão subjetiva que é o sentimento. Sim, mulheres acreditam que homens de saia, batom e barba são mulheres porque se sentem assim. E quando você questiona o que é se sentir mulher, nada diferente de papéis de gênero são colocados à mesa. Eu me tornei alguém anti-feminista por perder a paciência com mulheres em situação de Estocolmo. Precisamos ajudá-las na surdina, longe dos olhos e ouvidos masculinos que irão te chamar de transfóbica e destilar misoginia em nome da identidade de gênero.

Recentemente, uma feminista famosa no meio radical se afastou da militância. E cada dia mais vejo isso acontecer. Como a mesma já escreveu “nós falhamos“. Falhamos em comunicarmos com mulheres, falhamos em melhorar a teoria para que se torne acessível à todas. Falhamos em mantermos tudo isso na internet, no ambiente universitário. Feminismo é uma corrente de ajuda mútua e amor entre mulheres. Na prática, ele é racista, lesbofóbico e gordofóbico. O feminismo (aqui incluo todos) marginaliza mulheres já marginalizadas pela sociedade materialmente. Esquece das negras, das gordas, das lésbicas. Esquece das neuroatípicas (mulheres que sofrem com depressão, tdah, etc), das mães. Uma coisa que eu aprendi por repetição do ato: mulheres brancas preferem defender um homem branco em detrimento de uma mulher negra. Se as mulheres negras não podem confiar nas brancas, por que o feminismo existe? Se as lésbicas estão saturadas da imaturidade das héteros ao defender o estupro corretivo em nome de um sentimento masculino, a quem vão recorrer? Se as gordas precisam ouvir nos espaços feministas que devem agradecer por serem estupradas, em que isso ajuda? Mas até no feminismo há rivalidade, criada pelo patriarcado para embaçar nossa visão. Nossa socialização é pior que chiclete no cabelo!

O feminismo peca na prática porque somos pessoas. Não somos palavras que se encaixam e formam uma teoria. A minha militância nunca ajudou ninguém, eu nunca fui feminista. A minha condição como branca é de explorar mulheres negras, e isso é anti-feminista. Eu percebi que, era um erro me denominar feminista quando a diarista é negra. Quando eu perdia mais tempo discutindo a teoria na internet do que ajudando minha mãe negra em casa. Feminismo não é autoidentificação; se a sua atitude política não é de salvar, ajudar, emancipar mulheres, você não é feminista. Uma crítica ao liberal, que eu aplico ao radical. A política no radical é eficiente, mas ela não vinga na prática. Se um dia você precisar de ajuda financeira ou psicológica, não peça à uma feminista que acredita em autoidentificação feminista. Peça à alguém que tenha uma política feminista. Mulheres que trabalham em ONGs ajudam vítimas de violência doméstica, estupro, relacionamentos abusivos, e não conhecem o feminismo. A única coisa que essas mulheres conhecem é a empatia. E, sinceramente,  eu agradeço por tê-la em decorrência da socialização. Mulheres são empáticas. Mulheres conseguem colocar-se no lugar do outro — mesmo que ela seja esse outro para o resto da sociedade, como já foi dito por Beauvoir —  e ajudá-la. E quando fizemos recortes de raça, por exemplo, percebemos as classes mais ínfimas, que preferem ajudar um igual, independente de gênero, a um diferente, com o mesmo gênero.

Não basta a subversão ser somente sua, é preciso que todas as mulheres sejam subversivas. Isso não ocorrerá enquanto não houver uma política de segurança para mulheres, uma compreensão de empatia com a mesma classe. É mais producente ficar longe da internet e de espaços feministas tóxicos que abraçam homens, a perder saúde por isto. Enquanto mulheres na política, aborto legalizado e subsidiado pelo Estado, parto normal como prioridade e conhecimento do parto humanizado, diminuição de violência de gênero e relacionamentos abusivos, mães amamentarem em locais públicos, lésbicas não sofrerem estupros corretivos, ou seja, as verdadeiras pautas feministas pragmáticas não acontecerem, nós falhamos e de nada vale dizer-se feminista.